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Dengue grave / síndrome do choque da dengue — sinais de alarme e classificação de risco A/B/C/D

Paciente com suspeita de dengue — quais sinais de alarme e de choque preciso pesquisar agora, em qual grupo de risco (A/B/C/D) ele se encaixa, e qual a reposição volêmica inicial enquanto aguardo exames?

Red flags — sinais de gravidade

  • Erro que mata: interpretar a queda da febre como melhora — é exatamente na defervescência (dia 3-7) que a fase crítica começa e os sinais de alarme/choque costumam surgir
  • Erro que mata: esperar hipotensão franca para reconhecer choque — no choque compensado a PA sistólica pode estar normal enquanto a diastólica sobe e a pressão de pulso se estreita (<20 mmHg); taquicardia, extremidades frias, pulso fino e enchimento capilar >2s já indicam choque
  • Dor abdominal intensa e contínua (referida ou à palpação)
  • Vômitos persistentes
  • Acúmulo de líquidos: ascite, derrame pleural, derrame pericárdico
  • Hipotensão postural e/ou lipotimia
  • Hepatomegalia >2 cm abaixo do rebordo costal
  • Sangramento de mucosa
  • Letargia e/ou irritabilidade
  • Aumento progressivo do hematócrito
  • Dengue grave (Grupo D): choque (taquicardia, extremidades frias, pulso fraco/filiforme, enchimento capilar >2s, PA convergente <20 mmHg, taquipneia, oligúria <1,5 mL/kg/h, hipotensão e cianose na fase tardia), sangramento grave (hematêmese, melena, metrorragia volumosa, sangramento de SNC) ou comprometimento grave de órgão (AST/ALT >1.000, alteração de consciência, miocardite)
  • Erro que mata: em idosos e cardiopatas, tratar a reposição volêmica como se fosse igual à do jovem hígido — esse grupo tem risco maior de sobrecarga de volume e edema pulmonar; hidratação precisa de acompanhamento minucioso (ausculta buscando crepitação)
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Confirmar critério de caso suspeito: febre 2-7 dias + 2 ou mais de náusea/vômitos, exantema, mialgia/artralgia, cefaleia, dor retro-orbital, petéquias, leucopenia, em área com transmissão de dengue ou viagem recente (14 dias)
  • Pesquisar ativamente os 7 sinais de alarme (item redFlags) — eles aparecem tipicamente na defervescência da febre (dia 3-7), não durante o pico febril
  • Verificar sangramento espontâneo ou induzido (a prova do laço tem baixo valor preditivo para gravidade segundo revisão Opas/OMS 2022 — não usar isoladamente para decidir internação)
  • Checar condições especiais/comorbidades que mudam o grupo: lactente <24 meses, gestante, >65 anos, HAS ou outra doença cardiovascular grave, diabetes, DPOC, asma, obesidade, doença hematológica crônica, doença renal crônica, doença ácido-péptica, hepatopatia, doença autoimune
  • Avaliar estado hemodinâmico: pulso, PA, PA média, pressão de pulso, enchimento capilar, frequência respiratória — não esperar hipotensão franca, o choque compensado já cursa com PA sistólica normal e diastólica subindo
  • Solicitar hemograma completo (obrigatório em todo Grupo B, C e D) e avaliar hemoconcentração (hematócrito em ascensão é o principal marcador de extravasamento)
  • Perguntar sobre uso de AAS, anti-inflamatórios, anticoagulantes/antiagregantes — muda a conduta hemorrágica e a decisão de suspender a droga

Conduta inicial

  1. 11. Classificar o paciente em Grupo A (sem sinais de alarme, sem comorbidade/risco), B (sem sinais de alarme, mas com sangramento induzido/espontâneo ou com comorbidade/condição especial), C (com sinal de alarme, sem sinais de gravidade) ou D (choque, sangramento grave ou disfunção grave de órgão) — o estadiamento pode mudar em poucas horas, reavaliar sempre.
  2. 22. Grupo A: hidratação oral, sem exames obrigatórios, retorno agendado no dia da melhora da febre (possível início da fase crítica) ou no 5º dia se a febre não ceder.
  3. 33. Grupo B: hemograma completo obrigatório, resultado em até 2-4h; hidratação oral como Grupo A até o resultado; se hemoconcentração ou sinal de alarme surgir, conduzir como Grupo C.
  4. 44. Grupo C: iniciar reposição volêmica imediata em qualquer ponto de atenção, mesmo sem exames — 10 mL/kg de SF 0,9% na 1ª hora. Reavaliar clínica após 1h (sinais vitais, PA, diurese desejável 1 mL/kg/h) e manter 10 mL/kg/h na 2ª hora até avaliar hematócrito (em até 2h). Sem melhora, repetir a fase de expansão até 3 vezes. Com melhora clínica e laboratorial, iniciar manutenção: 25 mL/kg em 6h, depois 25 mL/kg em 8h. Internação mínima de 48h.
  5. 55. Grupo D: iniciar imediatamente expansão rápida parenteral — 20 mL/kg de SF 0,9% em até 20 minutos, em qualquer nível de complexidade, mesmo durante transferência. Repetir até 3 vezes conforme avaliação clínica. Reavaliação clínica a cada 15-30 min e hematócrito a cada 2h — monitoramento contínuo. Leito de UTI até estabilização (mínimo 48h).
  6. 66. Se resposta inadequada com choque persistente: hematócrito em ascensão → expansores plasmáticos (albumina 0,5-1 g/kg, preparar a 5%; na falta, coloide sintético 10 mL/kg/h). Hematócrito em queda com choque persistente → investigar hemorragia/coagulopatia: hemorragia → concentrado de hemácias 10-15 mL/kg/dia; coagulopatia → plasma fresco 10 mL/kg, vitamina K IV, crioprecipitado 1U/5-10kg; transfusão de plaquetas só se sangramento persistente não controlado após correção dos fatores + choque, com trombocitopenia e INR >1,5x o normal.
  7. 77. Interromper/reduzir a infusão à velocidade mínima quando: cessar o extravasamento, PA/pulso/perfusão normalizarem, hematócrito cair sem sangramento, diurese normalizar e sintomas abdominais resolverem.
  8. 88. Suspender AAS/AINEs e corticosteroides em todos os grupos — usar só paracetamol ou dipirona. Em anticoagulados/antiagregados, a conduta depende da contagem de plaquetas (ver Apêndice do manual do MS: DAPT, AAS isolado, varfarina, DOACs) — não suspender/reverter rotineiramente sem avaliar o risco trombótico.
  9. 99. Gestante: mesmo estadiamento e mesmo volume de reposição dos demais grupos, mas atenção redobrada — sinais de choque aparecem mais tarde (mascarados pelas alterações fisiológicas da gravidez) e a letalidade é maior, principalmente no 3º trimestre. Decúbito lateral esquerdo a partir da 20ª semana.
  10. 1010. Notificar todo caso suspeito de dengue (doença de notificação compulsória) e preencher o cartão de acompanhamento do paciente.

Exames

  • Hemograma completo — obrigatório em todos os grupos B, C e D
  • Albumina sérica e transaminases — obrigatórios nos Grupos C e D
  • Radiografia de tórax (PA, perfil, incidência de Hjelm-Laurell) e USG de abdome — recomendados nos Grupos C e D (USG mais sensível para derrame cavitário)
  • Conforme necessidade: glicemia, ureia, creatinina, eletrólitos, gasometria, tempo de atividade de protrombina (TAP), ecocardiograma
  • Confirmação específica (obrigatória para vigilância, não essencial para a conduta): NS1, RT-PCR ou isolamento viral até o 5º dia de sintomas; sorologia IgM a partir do 6º dia

Prescrição-modelo

Ajustar sempre por peso, idade, função renal/cardíaca, comorbidades e protocolo local antes de prescrever — este modelo é ponto de partida para o rascunho, não uma prescrição fechada.

Dieta

  • Dieta livre conforme aceitação — não interromper alimentação durante a hidratação; manter e estimular amamentação
  • Jejum apenas se risco iminente de instabilidade/procedimento

Soro

  • Grupo A/B — hidratação oral: adulto 60 mL/kg/dia (1/3 sais de reidratação oral, 2/3 líquidos caseiros); criança <13 anos: até 10 kg = 130 mL/kg/dia; 10-20 kg = 100 mL/kg/dia; >20 kg = 80 mL/kg/dia. Manter durante toda a fase febril e por 24-48h após a defervescência.
  • Grupo C — reposição volêmica: SF 0,9% 10 mL/kg na 1ª hora; manter 10 mL/kg/h na 2ª hora até avaliação do hematócrito (máximo 20 mL/kg em 2h por etapa); se não houver melhora, repetir a expansão até 3 vezes; com melhora, manutenção 25 mL/kg em 6h seguido de 25 mL/kg em 8h
  • Grupo D — expansão rápida: SF 0,9% 20 mL/kg em até 20 minutos; repetir até 3 vezes conforme avaliação clínica e de hematócrito (a cada 2h)
  • Idosos e cardiopatas: individualizar por classe funcional NYHA — volumes menores (10-15 mL/kg) e monitorização rigorosa de congestão pulmonar

Medicamentos

  • Paracetamol — adulto: 500-1000 mg VO de 4/4 a 6/6h (máx. 4 g/24h); criança: 10 mg/kg/dose de 6/6h
  • Dipirona — adulto: 500 mg VO/EV de 6/6h; criança: 10 mg/kg/dose de 6/6h
  • Não usar AAS, anti-inflamatórios não esteroides nem corticosteroides em nenhum grupo

Recomendações

  • Orientar retorno imediato se surgir qualquer sinal de alarme ou sangramento
  • Preencher e entregar o cartão de acompanhamento de dengue
  • Reforçar eliminação de criadouros do Aedes aegypti e uso de repelente enquanto sintomático (viremia)
  • Explicar que exames específicos de confirmação não mudam a conduta terapêutica imediata

Exames

  • Hemograma completo (obrigatório a partir do Grupo B)
  • Albumina sérica e transaminases (Grupos C/D)
  • RX de tórax e USG de abdome (Grupos C/D)

Referências

  1. [1]Dengue: diagnóstico e manejo clínico – adulto e criança, 6ª edição, Ministério da Saúde / Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVSA) / Departamento de Doenças Transmissíveis, Brasília, 2024
  2. [2]Dengue: guidelines for diagnosis, treatment, prevention and control, 9ª ed., World Health Organization (WHO), 2009 — base da classificação de risco A/B/C/D adotada pelo Brasil desde 2014
  3. [3]Tool for diagnosis and care of patients with suspected arboviral disease, Pan American Health Organization (PAHO), 2016

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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