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Epistaxe grave e refratária: conduta escalonada

Paciente chegou com sangramento nasal que não para com compressão — como escalono a conduta e quando chamo otorrino ou radiologia intervencionista?

Red flags — sinais de gravidade

  • Erro que mata: manter compressão intermitente (soltando a cada minuto para 'ver se parou') em vez de compressão contínua de 5-15 min — reinicia o sangramento e atrasa hemostasia
  • Erro que mata: cauterizar química ou eletricamente os dois lados do septo na mesma consulta — risco de perfuração septal e necrose
  • Sangramento posterior maciço com engasgo/vômito de sangue e via aérea ameaçada — priorizar via aérea antes de qualquer manobra nasal
  • Sinais de choque hipovolêmico (taquicardia, hipotensão, palidez) — repor volume e considerar reserva de sangue antes de prosseguir com procedimentos locais demorados
  • Tamponamento posterior instalado sem monitorização (risco de reflexo naso-pulmonar com hipoxemia/bradicardia) — exige observação continuada, idealmente internado
  • Epistaxe recorrente sem fator óbvio, principalmente unilateral persistente — investigar lesão estrutural (tumor, angiofibroma) antes de repetir cauterização às cegas
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Avaliar estabilidade hemodinâmica primeiro (volume estimado de sangramento, sinais vitais, sinais de hipovolemia) antes de focar só no nariz
  • Posicionar o paciente sentado, tronco inclinado para frente (não deitado, não com cabeça para trás) para evitar deglutição de sangue e aspiração
  • Compressão digital firme e contínua na porção mole do terço inferior do nariz (asas nasais), por 5 a 15 minutos ininterruptos, sem soltar para checar
  • Se sangramento persiste: rinoscopia anterior após remoção de coágulos para localizar o sítio, com vasoconstritor tópico (oximetazolina) associado a anestésico local
  • Sítio anterior identificado (mais comum, plexo de Kiesselbach): cauterização química com nitrato de prata (anestesiar antes, cauterizar só o lado sangrante — nunca os dois lados do septo na mesma sessão, risco de perfuração)
  • Falha de cauterização ou sítio não identificado: tamponamento anterior (gaze ou tampão expansível); preferir material reabsorvível se paciente com coagulopatia ou em anticoagulante/antiagregante
  • Sangramento não controla com tamponamento anterior bem posicionado, ou sinais de sangramento posterior (desce pela orofaringe apesar do tampão anterior): acionar otorrinolaringologia para tamponamento posterior (balão ou sonda) — geralmente exige internação e monitorização
  • Refratário a tamponamento (anterior + posterior) bem feito: discutir com otorrino embolização por radiologia intervencionista ou ligadura arterial cirúrgica (esfenopalatina/etmoidal)
  • Não suspender nem reverter anticoagulante/antiagregante de forma automática — tentar medidas locais primeiro; decisão de suspender é compartilhada com quem prescreveu, exceto sangramento com risco de vida
  • Investigar causa se recorrente ou sem trauma/fator precipitante óbvio: HAS mal controlada, discrasia sanguínea, uso de anticoagulante, lesão estrutural (pólipo, tumor), telangiectasia hemorrágica hereditária

Conduta inicial

  1. 1Sentar o paciente, tronco à frente, e aplicar compressão digital firme e contínua nas asas nasais por 5-15 minutos sem interromper.
  2. 2Se não controla: rinoscopia anterior com vasoconstritor tópico + anestésico para localizar o sítio de sangramento.
  3. 3Sítio anterior visível: cauterização química com nitrato de prata, unilateral.
  4. 4Sem controle ou sítio não visualizado: tamponamento nasal anterior (preferir material reabsorvível se coagulopatia/anticoagulante).
  5. 5Sangramento sugerindo origem posterior ou refratário ao tamponamento anterior: acionar otorrinolaringologia para tamponamento posterior/balão, com internação para monitorização.
  6. 6Refratário ao tamponamento posterior: discutir embolização (radiologia intervencionista) ou ligadura arterial cirúrgica com otorrino.
  7. 7Reavaliar necessidade real de suspender anticoagulante/antiagregante junto com quem prescreveu — não suspender por rotina.

Exames

  • Hemograma completo (avaliar perda sanguínea e plaquetas)
  • Coagulograma (TP, TTPA) se uso de anticoagulante, doença hepática ou sangramento importante
  • Tipagem sanguínea e reserva de hemocomponentes se sangramento volumoso ou instabilidade
  • Função renal se for ajustar/avaliar anticoagulante
  • TC de face/seios paranasais se suspeita de lesão estrutural em epistaxe recorrente sem trauma

Prescrição-modelo

Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever. Nenhum destes itens substitui a rinoscopia e a decisão de tamponamento feita à beira do leito.

Soro

  • Cristaloide (SF 0,9% ou Ringer lactato) em bolus se sinais de hipovolemia — ajustar por resposta hemodinâmica

Medicamentos

  • Oximetazolina spray nasal 0,05% — 2-3 jatos no lado sangrante antes da rinoscopia
  • Lidocaína 2% com epinefrina (ou lidocaína + vasoconstritor tópico) para anestesiar antes de cauterizar
  • Nitrato de prata em bastão (cauterização química) — aplicar só no ponto sangrante, unilateral
  • Ácido tranexâmico tópico (gaze embebida) ou IV em sangramento persistente sem contraindicação

Recomendações

  • Manter cabeça inclinada para frente, nunca para trás
  • Evitar assoar o nariz, tossir com força ou manobras de Valsalva por 7-10 dias após o episódio
  • Se tampão anterior instalado: orientar retorno para retirada em 24-72h (ou conforme material usado) e prescrever cobertura antibiótica só se fator de risco (imunossupressão, prótese valvar) — não é rotina
  • Se tamponamento posterior: internação com monitorização cardiorrespiratória contínua

Exames

  • Hemograma e coagulograma antes de decidir tamponamento em paciente anticoagulado
  • TC de face se recorrência sem causa aparente

Referências

  1. [1]Clinical Practice Guideline: Nosebleed (Epistaxis) — Tunkel DE et al., American Academy of Otolaryngology–Head and Neck Surgery Foundation (AAO-HNSF), Otolaryngology–Head and Neck Surgery, 2020

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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