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Profilaxia pós-exposição: sexual, ocupacional e antirrábica

Paciente chegou por violência sexual, acidente com perfurocortante, ou mordida/arranhão de animal — quando indico PEP para HIV, IST, hepatite B ou raiva, e qual esquema prescrevo?

Red flags — sinais de gravidade

  • Erro que mata: exposição grave à raiva (mordedura em face/mão, lambedura de mucosa, contato com morcego, animal não observável) tratada só com vacina, sem soro/imunoglobulina antirrábica — raiva humana instalada é quase 100% fatal
  • Erro que mata: adiar o início da PEP HIV/IST/raiva aguardando exames ou vaga de especialista — todas têm janela de eficácia (72h para HIV/IST; a antirrábica não tem prazo de corte, mas quanto antes melhor) e não devem esperar
  • Recusar iniciar PEP em violência sexual por dúvida sobre boletim de ocorrência ou notificação — atendimento clínico não pode ser condicionado a isso
  • Ferimento por morcego tratado como 'acidente leve' só porque a lesão parece superficial — mordedura de morcego é sempre classificada como exposição grave
  • Status sorológico da fonte não investigado em acidente ocupacional quando a fonte está disponível e pode ser testada rapidamente — decisão de manter/suspender PEP depende disso
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Violência sexual: acolher primeiro, sem julgamento; notificação compulsória é obrigatória mas não condiciona o atendimento; acionar rede de apoio psicossocial
  • Violência sexual: definir se exposição foi de risco (penetração vaginal/anal/oral com contato de mucosa/sêmen/sangue) e se está dentro de 72h — PEP HIV é mais eficaz quanto antes iniciada
  • Violência sexual: prescrever profilaxia de IST (sífilis, gonorreia, clamídia), contracepção de emergência se possibilidade de gravidez, e avaliar situação vacinal para hepatite B
  • Acidente ocupacional (perfurocortante/mucosa): classificar gravidade da exposição (percutânea profunda x superficial x mucosa/pele não íntegra) e status sorológico da fonte, se conhecida
  • Acidente ocupacional: indicar PEP HIV se fonte HIV+ (ou status desconhecido com risco) e exposição com material biológico de risco (sangue e fluidos com sangue visível); avaliar status de hepatite B do profissional (vacinado x não vacinado)
  • Acidente ocupacional: notificar como acidente de trabalho (CAT) e encaminhar para medicina do trabalho/CCIH
  • Raiva: classificar o acidente (leve: lambedura de pele íntegra, mordedura/arranhão superficial em tronco/membros; grave: lambedura de mucosa, ferimentos em cabeça/face/mão/dedo/planta do pé, lesões profundas ou múltiplas, qualquer contato com morcego)
  • Raiva: se cão ou gato domiciliado, saudável e observável — lavar o ferimento e observar o animal por 10 dias; só iniciar profilaxia se o animal adoecer, morrer ou não puder ser observado
  • Raiva: se animal silvestre (incluindo morcego), não observável, com sinais de raiva, ou desconhecido — não esperar: iniciar profilaxia conforme gravidade (vacina isolada se leve; soro/imunoglobulina + vacina se grave)
  • Raiva: lavar a ferida com água e sabão imediatamente — reduz carga viral e é a medida mais importante e mais esquecida
  • Em todos os três cenários: agendar sorologias de seguimento (basal e reavaliação em 6 semanas, 90 dias e 6 meses conforme o caso) e explicar ao paciente a importância de completar o esquema

Conduta inicial

  1. 1Violência sexual: acolhimento, exame físico documentado, PEP HIV (ver esquema) + profilaxia IST + contracepção de emergência + avaliação de hepatite B, dentro de 72h.
  2. 2Acidente ocupacional: lavar o local (água e sabão; não espremer o ferimento), avaliar fonte e gravidade da exposição, indicar PEP HIV conforme risco, avaliar hepatite B, notificar CAT.
  3. 3Exposição à raiva: lavar o ferimento com água e sabão imediatamente. Cão/gato domiciliado saudável observável → observar 10 dias, sem profilaxia inicial. Animal silvestre/morcego/não observável/com sinais de raiva → profilaxia conforme gravidade (vacina isolada se leve; soro ou imunoglobulina + vacina se grave).
  4. 4Em qualquer cenário: registrar consentimento informado, agendar retorno e sorologias de seguimento antes de liberar o paciente.

Exames

  • Sorologia anti-HIV basal (violência sexual e ocupacional)
  • HBsAg e anti-HBs (avaliar necessidade de vacina/imunoglobulina hepatite B)
  • VDRL/teste treponêmico basal
  • Beta-hCG se mulher em idade fértil (violência sexual, antes de definir contracepção de emergência e esquema de PEP)
  • Função renal e hepática antes de iniciar TDF/DTG
  • Repetir sorologias HIV/hepatites/sífilis em 6 semanas, 90 dias e 6 meses conforme protocolo

Prescrição-modelo

Ajustar sempre por peso, função renal, alergia e protocolo local antes de prescrever. Esquemas de PEP HIV, IST e raiva têm ajuste específico para gestantes, crianças e menores de 45kg — não são dose única para todos.

Medicamentos

  • PEP HIV — esquema preferencial: tenofovir/lamivudina (TDF/3TC) 300mg/300mg VO 1x/dia + dolutegravir (DTG) 50mg VO 1x/dia, por 28 dias, iniciar em até 72h da exposição
  • Profilaxia sífilis (violência sexual): penicilina G benzatina 2,4 milhões UI IM dose única (adulto/adolescente >45kg); 50.000 UI/kg IM se <45kg
  • Profilaxia gonorreia/clamídia (violência sexual): ceftriaxona 500mg IM dose única + azitromicina 1g VO dose única (adulto/adolescente >45kg); ajustar dose em <45kg
  • Contracepção de emergência: levonorgestrel 1,5mg VO dose única, até 5 dias após a exposição (idealmente nas primeiras 72h)
  • Hepatite B: vacina (e imunoglobulina se exposição de alto risco e não vacinado/esquema incompleto)
  • Raiva — exposição grave com animal não observável/suspeito: soro antirrábico (SAR) 40 UI/kg IM (infiltrar o máximo possível ao redor do ferimento) OU imunoglobulina antirrábica humana (IGHAR) 20 UI/kg, associado a vacina antirrábica de cultivo celular nos dias 0, 3, 7 e 14
  • Raiva — exposição leve com animal não observável/suspeito: vacina antirrábica isolada nos dias 0, 3, 7 e 14, sem soro/imunoglobulina

Recomendações

  • Reforçar adesão aos 28 dias de PEP HIV — abandono precoce é o principal motivo de falha
  • Orientar retorno para completar esquema vacinal antirrábico mesmo se o animal reaparecer saudável depois de iniciada a série
  • Notificação compulsória: violência sexual e acidente com material biológico têm notificação obrigatória (SINAN) — não depende de boletim de ocorrência
  • Encaminhar violência sexual para rede de apoio psicossocial/CAPS e, se desejar, aspectos legais (delegacia, IML) sem condicionar o atendimento clínico a isso
  • Acidente ocupacional: encaminhar para medicina do trabalho/CCIH e abrir CAT

Exames

  • Sorologias basais (HIV, hepatites, sífilis) antes de iniciar profilaxia, sem atrasar o início por resultado
  • Reavaliação sorológica em 6 semanas, 90 dias e 6 meses

Referências

  1. [1]Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para Profilaxia Pós-Exposição (PEP) de Risco à Infecção pelo HIV, IST e Hepatites Virais, Ministério da Saúde/Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, 2021
  2. [2]Violência Sexual: Orientações aos Profissionais da Saúde em Situações de Emergência em Saúde Pública, Ministério da Saúde
  3. [3]Normas Técnicas de Profilaxia da Raiva Humana — Guia de Vigilância em Saúde, volume 3, Ministério da Saúde, 6ª edição

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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