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Urticária aguda e angioedema sem anafilaxia — diferenciação e conduta no PS

Chegou paciente com placas pruriginosas ou lábio/língua inchados, sem critérios de anafilaxia — como diferencio urticária de angioedema e o que faço no PS?

Red flags — sinais de gravidade

  • Qualquer sinal de via aérea: voz abafada ou rouca, estridor, disfagia, sialorreia, edema de língua/úvula em progressão — acione quem intuba cedo, a via aérea nesses casos é difícil.
  • Critérios de anafilaxia presentes ou surgindo na reavaliação (hipotensão, sibilância, vômitos persistentes) — trate como anafilaxia (ps-007), adrenalina IM sem demora.
  • Erro que mata: tratar angioedema de língua/laringe em usuário de IECA como 'alérgico', dar anti-H1 + corticoide e ficar esperando resposta em vez de preparar via aérea — o mecanismo é bradicinina, essas drogas têm pouco efeito e o edema pode progredir por horas.
  • Angioedema por IECA pode aparecer anos depois do início da droga — 'usa há muito tempo' não exclui.
  • Alta precoce de angioedema de face/orofaringe: a progressão pode ser tardia — observe por horas antes de liberar.
  • Urticária com febre, artralgia, lesões que duram mais de 24h no mesmo lugar ou deixam mancha residual: pense em urticária-vasculite ou doença sistêmica, não é urticária aguda simples.
  • Não devolver o paciente para casa com o IECA mantido — recorrência pode ser pior.
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.

Conteúdo destinado a profissionais de saúde.

Checklist rápido

  • Primeiro: tem critério de anafilaxia? Pele + acometimento respiratório, cardiovascular ou GI significativo muda tudo — se sim, sai deste verbete e vai para o ps-007 (anafilaxia).
  • Diferencie: urticária é placa superficial, pruriginosa, fugaz (cada lesão dura menos de 24h); angioedema é edema de derme profunda/submucosa, mais dor/queimação que prurido, dura até 72h.
  • Angioedema: onde está? Lábio e face isolados são uma coisa; língua, assoalho da boca, úvula, laringe (disfonia, estridor, sialorreia) é via aérea ameaçada — avalie e reavalie.
  • Revise medicações: IECA (mesmo em uso há anos), AINE, antibiótico recente (beta-lactâmico), contraste. Pergunte também alimento, picada de inseto e infecção viral recente.
  • Angioedema SEM urticária e SEM prurido em usuário de IECA: pense em mecanismo por bradicinina — anti-H1, corticoide e adrenalina funcionam mal aqui.
  • Angioedema recorrente sem urticária e sem IECA: considere angioedema hereditário (história familiar, crises abdominais) — vale dosar C4/C1-INH depois, não muda a conduta de via aérea agora.
  • Pergunte há quanto tempo os surtos se repetem: urticária com atividade por mais de 6 semanas é crônica — o PS trata o surto, mas o seguimento é ambulatorial (alergia/dermato).
  • Antes da alta: paciente sem lesão nova em progressão, sem sintoma de via aérea, orientado sobre gatilho suspeito e retorno.

Conduta inicial

  1. 1Descartou anafilaxia? Então a base da urticária aguda é anti-H1 de 2ª geração (loratadina, desloratadina, fexofenadina ou bilastina) — preferir aos de 1ª geração pela sedação.
  2. 2A diretriz internacional de urticária (EAACI/GA²LEN 2022) recomenda anti-H1 de 2ª geração como primeira linha; em urticária crônica admite até 4x a dose padrão sob orientação — no surto agudo do PS, comece com dose padrão e reavalie.
  3. 3Corticoide tem papel limitado: considerar ciclo curto (ex.: prednisona VO por poucos dias, sem desmame) só em surto extenso/refratário ou com angioedema alérgico associado — não é rotina e não trata a causa.
  4. 4Angioedema em usuário de IECA: suspender o IECA definitivamente (efeito de classe) e priorizar avaliação/proteção de via aérea — a AAEM aponta que não há evidência suficiente para anti-H1, corticoide ou adrenalina de rotina nesse mecanismo.
  5. 5Adrenalina IM entra se surgirem critérios de anafilaxia ou comprometimento de via aérea de mecanismo alérgico — aí o manejo é o do ps-007.
  6. 6Angioedema de orofaringe (qualquer causa): observação prolongada no PS, reavaliação seriada da via aérea, material de intubação difícil à mão e cirurgia/anestesia avisadas se houver progressão.
  7. 7Na alta: manter anti-H1 de 2ª geração por alguns dias, listar gatilho suspeito por escrito, orientar retorno imediato se edema de boca/garganta ou falta de ar.
  8. 8Encaminhar ao ambulatório: urticária que passar de 6 semanas (crônica), angioedema recorrente sem causa clara, suspeita de angioedema hereditário.

Exames

  • Urticária aguda isolada: em geral nenhum exame — diagnóstico é clínico e a investigação de rotina não muda conduta (EAACI/GA²LEN 2022).
  • Angioedema recorrente sem urticária: programar C4 (e C1-INH se disponível) ambulatorialmente para rastrear angioedema hereditário/adquirido.
  • Exames dirigidos só se a clínica apontar (ex.: sinais de infecção como gatilho, suspeita de urticária-vasculite).

Prescrição-modelo

Modelo de rascunho para o residente adaptar e confirmar — doses, vias e intervalos devem ser conferidos com protocolo institucional e prescritor responsável. Campos em aberto ( ___ ) são intencionais.

Dieta

  • Dieta livre, evitar gatilho alimentar suspeito ( ___ ) se identificado

Soro

  • Sem soroterapia de rotina na urticária aguda sem repercussão sistêmica ( ___ se necessário)

Medicamentos

  • Anti-H1 de 2ª geração VO — loratadina ___ mg OU desloratadina ___ mg OU fexofenadina ___ mg, 1x/dia por ___ dias
  • Se prurido intenso noturno, considerar hidroxizina ___ mg VO à noite ( ___ ) — atenção à sedação
  • Se surto extenso/refratário: prednisona ___ mg/kg/dia VO por ___ dias (ciclo curto, sem desmame) — confirmar indicação
  • Se angioedema por IECA: SUSPENDER ___ (IECA) — registrar em prontuário e na receita; não substituir por outro IECA

Recomendações

  • Retorno imediato ao PS se inchaço de língua/garganta, voz alterada, falta de ar ou tontura
  • Evitar AINE durante o surto (pode exacerbar urticária)
  • Anotar possíveis gatilhos (medicação nova, alimento, infecção) para levar ao ambulatório
  • Encaminhamento ambulatorial (alergia/dermatologia) se surtos passarem de 6 semanas ou angioedema recorrente

Exames

  • Sem exames de rotina na urticária aguda isolada
  • Se angioedema recorrente sem urticária: solicitar C4 ___ (ambulatorial)

Referências

  1. [1]The international EAACI/GA²LEN/EuroGuiDerm/APAAACI guideline for the definition, classification, diagnosis, and management of urticaria — EAACI/GA²LEN/EuroGuiDerm/APAAACI, Allergy (Zuberbier et al.), 2022
  2. [2]Clinical Practice Statement: What is the Emergency Department Management of Patients with Angioedema Secondary to an ACE-inhibitor? — American Academy of Emergency Medicine (AAEM), 2020 (publicado no Journal of Emergency Medicine, 2021)
  3. [3]Clinical Practice Guideline: Initial Evaluation and Management of Patients Presenting with Acute Urticaria or Angioedema — American Academy of Emergency Medicine (AAEM), 2006

Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.

No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.

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