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Otalgia no plantão — otite média aguda e otite externa: quando antibiótico e o que não perder
Chegou otalgia no meu plantão — como diferencio otite média de externa, quando entro com antibiótico e o que não posso deixar passar?
Red flags — sinais de gravidade
Erro que mata: rotular otite externa maligna de 'otite externa comum' no diabético/imunossuprimido — dor intensa desproporcional, tecido de granulação no assoalho do canal, evolução arrastada. É osteomielite de base de crânio: internação, imagem e ORL.
Edema, hiperemia e dor retroauricular com pavilhão deslocado 'em abano' — mastoidite aguda. Internar, imagem e ORL, não mandar para casa com amoxicilina.
Cefaleia intensa, vômitos, rebaixamento, rigidez de nuca ou sinal focal — complicação intracraniana (meningite, abscesso, trombose de seio) até prova em contrário.
Paralisia facial periférica associada a otite ou a vesículas no pavilhão/canal (Ramsay Hunt) — avaliação urgente, não é ambulatorial de rotina.
Vertigem, nistagmo ou hipoacusia súbita importante junto com a otite — pensar em labirintite supurativa/comprometimento de orelha interna.
Lactente com menos de 6 meses com OMA — sem observação vigilante: antibiótico imediato e limiar baixo para reavaliar.
Otalgia + otoscopia normal em fumante/etilista adulto persistente — não esquecer neoplasia de faringe/laringe como causa de dor referida.
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Otoscopia bilateral sempre — compare os dois lados antes de fechar qualquer hipótese.
OMA: o achado-chave é abaulamento da membrana timpânica (moderado/intenso, ou leve com otalgia de início há menos de 48h). Hiperemia isolada não fecha OMA.
Otite externa: dor à tração do pavilhão ou à pressão do trago, canal edemaciado/com debris — membrana pode estar normal ou nem visível.
Otoscopia normal com dor? Pense em otalgia referida: ATM, dente, faringe/amígdala, coluna cervical. Examine boca e articulação.
Otorreia: pode ser OMA com perfuração ou otite externa — a dor à manipulação do pavilhão ajuda a separar.
Diabético ou imunossuprimido com otalgia intensa e desproporcional: pensar ativamente em otite externa maligna (necrosante) — não é 'só uma otite'.
Febre, estado geral e sinais retroauriculares fazem parte do exame — mastoidite é clínica, não de imagem.
Pergunte sobre uso recente de antibiótico (últimos 30 dias) — muda a escolha do esquema na OMA.
Conduta inicial
1Analgesia é o centro do tratamento nas duas otites, com ou sem antibiótico: dipirona ou ibuprofeno em dose habitual — dor de ouvido dói muito, trate primeiro.
2OMA criança — antibiótico imediato se: menor de 6 meses; 6-23 meses com OMA bilateral; qualquer idade com sintomas graves (otalgia moderada/intensa, dor há 48h ou mais, febre 39°C ou mais) ou otorreia (AAP 2013).
3OMA criança — observação vigilante 48-72h (sem antibiótico, com analgesia e retorno garantido) é opção em: 6-23 meses com OMA unilateral sem gravidade; 2 anos ou mais sem gravidade. Se piorar ou não melhorar, inicia antibiótico.
4Quando tratar OMA em criança: a SBP recomenda amoxicilina 40-50 mg/kg/dia como dose habitual na OMA simples no Brasil, reservando 80-90 mg/kg/dia (dose alta da AAP 2013) para falha, quadro grave, otite recorrente ou uso de antibiótico nos últimos 30 dias. Dividir em 2 tomadas; 10 dias se menor de 2 anos ou quadro grave, cursos mais curtos (5-7 dias) possíveis em maiores sem gravidade. Amoxicilina-clavulanato se usou amoxicilina nos últimos 30 dias, síndrome otite-conjuntivite ou falha em 48-72h.
5OMA adulto: amoxicilina em dose alta é a primeira escolha (curso de 5-7 dias no não complicado, até 10 dias em casos mais graves); falha ou fator de risco, amoxicilina-clavulanato. Alergia a penicilina: discutir alternativa conforme protocolo local.
6Otite externa difusa não complicada: gotas otológicas tópicas (antibiótico com ou sem corticoide, ex. ciprofloxacino + hidrocortisona) por 7-10 dias, analgesia sistêmica e proteger o ouvido de água. Antibiótico oral de rotina não — é ineficaz para OE não complicada e seleciona resistência (AAO-HNS 2014).
7Antibiótico sistêmico na otite externa só se: extensão para além do canal (celulite de face/pavilhão), imunossupressão/diabetes ou suspeita de otite maligna.
8Encaminhar ORL: falha de tratamento, otites de repetição, perfuração que não fecha, canal tão edemaciado que a gota não entra (precisa de curativo/mecha), e toda suspeita de otite externa maligna ou complicação.
Exames
Otoscopia bilateral — é o exame; OMA e OE são diagnósticos clínicos, sem exame complementar de rotina.
TC de mastoides/crânio com contraste só se suspeita de complicação: mastoidite, otite externa maligna, sinal neurológico.
Hemograma, PCR e culturas (secreção/hemocultura) apenas no paciente toxemiado, imunossuprimido ou com suspeita de complicação.
Na suspeita de otite externa maligna: imagem (TC/RM), cultura da secreção do canal e avaliação de controle glicêmico.
Prescrição-modelo
Modelo de rascunho para você adaptar e assinar — doses, alergias e função renal conferidas por você. Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Dieta
Dieta livre conforme aceitação
Soro
Sem hidratação venosa de rotina — caso ambulatorial ( ___ se vômitos/desidratação)
Medicamentos
Dipirona ___ mg VO/IV de 6/6h se dor ou febre (peso/idade: ___ )
Ibuprofeno ___ mg VO de 8/8h se dor (alternativa/associação — avaliar contraindicações)
OMA criança: Amoxicilina VO dividida em 2 tomadas por ___ dias (peso: ___ kg) — 40-50 mg/kg/dia na OMA simples (SBP); 80-90 mg/kg/dia se grave/recorrente/uso recente de ATB (AAP 2013). SE critério de antibiótico imediato ou falha da observação
OMA adulto: Amoxicilina ___ mg VO de ___ h por 10 dias (ou amoxicilina-clavulanato ___ se uso recente de amoxicilina/falha)
Otite externa: Ciprofloxacino + hidrocortisona suspensão otológica, ___ gotas no ouvido acometido de ___ h por 7-10 dias
Recomendações
Não molhar o ouvido durante o tratamento (algodão com vaselina no banho); não usar hastes flexíveis
Se optado por observação vigilante na OMA: retorno garantido em 48-72h ou antes se piora — reavaliar e iniciar antibiótico se não melhorar
Diabético: reforçar controle glicêmico e retorno precoce se dor piorar
Exames
Sem exame complementar de rotina — diagnóstico é clínico/otoscópico
TC de mastoides/crânio com contraste SE suspeita de mastoidite, otite externa maligna ou complicação intracraniana
Referências
[1]The Diagnosis and Management of Acute Otitis Media (Clinical Practice Guideline), American Academy of Pediatrics (AAP), Pediatrics, 2013
[2]Clinical Practice Guideline: Acute Otitis Externa (Update), American Academy of Otolaryngology–Head and Neck Surgery Foundation (AAO-HNSF), Otolaryngology–Head and Neck Surgery, 2014
[3]Otitis Media: Diagnosis and Treatment, American Family Physician (AAFP), 2013