Síndrome de Guillain-Barré — fraqueza flácida aguda ascendente, monitorar via aérea/ventilação e quando IGIV/plasmaférese
Fraqueza subindo das pernas em dias com reflexos abolidos — como confirmo Guillain-Barré e o que vigiar para não perder a via aérea?
Red flags — sinais de gravidade
Sinais de falência respiratória (queda da capacidade vital, taquipneia, fala entrecortada, hipoventilação): antecipar via aérea — intubar por tendência, não esperar hipoxemia/hipercapnia franca.
Progressão rápida da fraqueza e/ou acometimento bulbar: internar em leito monitorado/UTI, o quadro pode desabar em horas.
Disautonomia grave (arritmia, oscilações de PA): monitorização contínua — causa importante de morte.
Não confundir com nível medular: dor em faixa, nível sensitivo e disfunção esfincteriana precoce apontam para compressão medular — investigar coluna.
Diagnósticos que imitam e mudam tudo: hipocalemia, botulismo, miastenia, mielite, intoxicações — considerar antes de fechar GBS.
Não usar corticoide como tratamento da GBS: não beneficia e pode atrasar a recuperação.
Isto é respaldo, não prescrição. Quem fecha a conduta é você.
Conteúdo destinado a profissionais de saúde.
Checklist rápido
Fraqueza flácida progressiva, geralmente ascendente e relativamente simétrica, evoluindo em dias até ~4 semanas.
Hiporreflexia/arreflexia — achado-chave; a força cai e os reflexos somem.
História de infecção prévia (gastrointestinal — Campylobacter — ou respiratória) semanas antes, ou outro gatilho.
Progressão: registrar velocidade da piora e nível atingido; quanto mais rápido, mais vigilância.
Avaliar musculatura respiratória: dispneia, fala entrecortada, uso de acessória, capacidade vital e força inspiratória à beira do leito.
Sinais bulbares: disfagia, disartria, dificuldade de manejar secreções — risco de aspiração.
Disautonomia: labilidade de PA, arritmias, retenção urinária, íleo — pode ser fatal e exige monitorização.
Escala de incapacidade (consegue andar sem apoio?) — orienta indicação de imunoterapia.
Conduta inicial
1Internar todo caso suspeito para monitorização respiratória, cardíaca e neurológica seriada — a piora é dinâmica.
2Monitorar função respiratória de forma seriada (capacidade vital, força inspiratória, clínica) e ter plano de via aérea; intubar precocemente diante de tendência de falência.
3Imunoterapia para quem não anda sem apoio (escala de incapacidade ≥3) ou com progressão/acometimento bulbar-respiratório: imunoglobulina IV 0,4 g/kg/dia por 5 dias (total 2 g/kg) OU plasmaférese (5 sessões, ~200–250 mL/kg no total).
4IGIV e plasmaférese têm eficácia semelhante — escolher pela disponibilidade e condição do paciente; não combinar as duas.
5Iniciar dentro de 2 semanas do início da fraqueza (plasmaférese pode ter benefício até ~4 semanas); começar o quanto antes.
6Monitorização cardíaca e de PA pela disautonomia; manejar retenção urinária, íleo e dor neuropática.
7Profilaxia de TEV, cuidados de pele, fisioterapia precoce e suporte nutricional (atenção à disfagia).
8Não usar corticoide isolado como tratamento; acionar neurologia e UTI conforme gravidade.
Exames
Punção lombar: dissociação albumino-citológica (proteína alta com celularidade normal) — pode ser normal na primeira semana.
Eletroneuromiografia para confirmar e caracterizar (desmielinizante vs axonal), conforme disponibilidade.
Capacidade vital / força inspiratória seriadas e gasometria conforme necessidade — guiam a decisão de via aérea.
Eletrólitos (afastar hipocalemia), função renal, exames para gatilhos/diferenciais conforme suspeita.
RM de coluna se dúvida com compressão/mielite (nível sensitivo, disfunção esfincteriana precoce).
Prescrição-modelo
Modelo de apoio, em rascunho, com campos em aberto ( ___ ) para o residente confirmar dose, via, peso, função renal e alergias antes de assinar. Não é prescrição finalizada.
Dieta
Avaliar disfagia antes da dieta VO; se risco de aspiração, jejum/via alternativa ___
Soro
Hidratação venosa conforme balanço e disautonomia ___
Medicamentos
Imunoglobulina humana IV 0,4 g/kg/dia por 5 dias (total 2 g/kg) — confirmar peso, função renal e IgA; alternativa: plasmaférese (5 sessões, ~200–250 mL/kg total). Não combinar as duas ___
Analgesia para dor neuropática: ___ (ex.: gabapentina ___ com titulação; evitar depressores respiratórios se risco ventilatório)
Profilaxia de TEV (heparina de baixo peso ___, ajustar à função renal) e proteção gástrica ___
NÃO usar corticoide como tratamento da GBS
Recomendações
Monitorização respiratória (capacidade vital/força inspiratória), cardíaca e de PA seriadas; plano de via aérea
Fisioterapia motora e respiratória, mudança de decúbito, cuidados de pele e olhos
Vigiar disautonomia, retenção urinária e íleo
Acionar neurologia e UTI conforme gravidade; documentar velocidade de progressão
Exames
Punção lombar (dissociação albumino-citológica) e eletroneuromiografia conforme disponibilidade ___
Eletrólitos, função renal, diferenciais/gatilhos; RM de coluna se dúvida com mielopatia ___
Referências
[1]European Academy of Neurology/Peripheral Nerve Society Guideline on diagnosis and treatment of Guillain–Barré syndrome (van Doorn PA et al.), European Journal of Neurology, 2023
[2]Practice parameter: Immunotherapy for Guillain-Barré syndrome, American Academy of Neurology (AAN), Neurology 61(6):736-740, 2003
Conteúdo educacional de apoio à decisão, não substitui avaliação clínica direta, protocolo institucional nem julgamento do médico responsável.
No plantão, a Curie levanta o que as diretrizes e a literatura dizem sobre o seu caso, com a fonte à vista. Quem fecha a conduta é você.